Mostrando postagens com marcador Cecília Villanova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cecília Villanova. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de dezembro de 2013

MARIPOSA



Apreciando o teu revoar
Vesti-me de lâmpada, mariposa.
Onde irás pousar?
Se em mim resta, a incerteza do teu leve pairar
desde o som do bater de tuas asas.
Sem teu sopro de vida, apagar-me.
Virar vaga-lume
Quem sabe...

(Cecília Villanova)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

TEMPOS MODERNOS



Os homens-pássaros
Das suas gaiolas
Apenas sonham
Sonhos de asas cortadas
E voam para o alçapão.

(Cecília Villanova)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PORQUE OS HOMENS SEMPRE VÃO ALI... (Para Nelson Rodrigues)


(Picasso)


Cremilda era daquelas mulheres domésticas, sempre muito preocupadas com o desenrolar dos dias e da família. Casada com Ariovaldo e mãe de Tiago. Uma coisa a chateava: sempre que um dos dois tinha que sair, nunca gostavam de dar sinais do seu paradeiro.
- Mulher, vou ali e já volto.
Em seguida seu filho:
- Mãe, vou ali e chego já.
Alguém bate à porta:
- Seu Ariovaldo está?
- Não, foi ali...
- Tá, bom dia pra senhora. Vou ali vê se vejo ele.
Mas esse dia, como todos os outros dias, foi diferente. Ela resolveu ir ali pra ver que mistério se escondia por trás de três letras (ela pensava por que nunca decerto falar para onde vai) Talvez fosse mais sensato omitir que mentir.
No seu decidir, pegou sua bolsinha de documentos, olhou-se no espelho, arrumou o vestido no corpo, sacudiu os cabelos (como quem tenta sacudir a cuca por dentro).
Deliciosa com seu rebolado, andar rápido e decidido, chega à esquina onde se tem como referência o bar do Sr. Américo. Cremilda avista, os três (marido, filho e amigo), todos sentados à mesa, numa verdadeira confraria: seu marido tomava cana com bolo de chocolate. Seu filho degustava com um chiclete big big. E o amigo, que tinha ido procura-lo, tomava com seriguela. Portanto seria cômico se não fosse trágico! (pensava ela)
- Oi mulher, que estais fazendo aqui?
Abanando-se com o leque:
- Tomando um ar... Tá tão quente, né?... Eu tava vendo a hora pegar fogo comigo e tudo mais lá em casa...(dando uma rabissaca)
- Para onde vais, mulher?
Tranquila e em sã consciência:
- Vou ali!...
E era logo ali, bem ali na cama do casal, onde o gostosão do vizinho a esperava para proporcionar-lhe um dia bem mais feliz.

(UM CONTO DE CECÍLIA VILLANOVA)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Recife, Hotel Rex, setembro de 1998




Poucas vezes na vida consegui dar boas gargalhadas. Portanto esse dia foi um marco em minha vida...

Eu e Fred morávamos no Hotel Rex, sito rua Barão de São Borja, na Boa Vista. Dividíamos o quarto com pequenas baratas que saiam do piso em madeira. Havia apenas dois cômodos: quarto e banheiro. Ali mesmo cozinhávamos, lavávamos roupas, pratos e tomávamos banho. Se pra cozinhar também tinha que ser ali, decidimos então, trocar nosso fogareiro elétrico, comprado no camelódromo, que levava umas 4 horas para cozinhar um feijão, por um fogãozinho de duas bocas(aquele pequenininho que mais se parece de casinha de boneca)

No Hotel sempre foi proibido cozinhar com gás, devido ao risco de incêndio. Ainda por cima, um hotel secular, com madeira por todos os lados.

Mas naquele dia, naquele dia, resolvemos fazer diferente.

Descemos do hotel com o bojão vazio dentro de uma bolsa de viagem para não dar pista. Andamos até a Ilha do Leite, onde trocamos o nosso bojãozinho vazio pelo cheio.

Chegando ao hotel, com o bojão cheio dentro da bolsa, demos um boa tarde bem sorridente aos funcionários, que de nada desconfiaram. Subimos aquela escada secular, circular em madeira, felizes em imaginar que nosso “sofrimento” seria amenizado e que enfim perderíamos menos tempo cozinhando e ganharíamos mais tempo para vender nossos folhetos de poesia.

Entramos, fechamos o quarto e começamos o processo: Fred pegou o bojão e tentou encaixar ao relógio. Mas, para nosso “azar”, começou a escapar muito gás. Havia um defeito onde não conseguíamos detectar. Formou-se uma nuvem de gás dentro do quarto. Fred colocou o bojão debaixo do chuveiro . Antes de que eu saísse do quarto, combinamos em dizer que não sentíamos cheiro algum. Sai do quarto e fui à varanda, mas fiquei preocupada com Fred lá dentro(inalando aquele gás). Há essas alturas a fumaça do gás já se espalhava pelo corredor.

Sobe um funcionário aos berros:

- Alguém está usando gás aí?

(silêncio absoluto)

Eu disfarçadamente na varanda apreciando o céu...

- Madame, a senhora não está sentindo um cheiro de gás?

- Gás??? Não!!!

Ele percebia que vinha do nosso quarto... Então dirigiu-se à porta batendo e gritando:

- Dr. Fred, o senhor não está sentindo um cheiro de gás?

E eu imaginava... Como Fred está?

De repente Fred abre meia porta, coloca apenas o rosto para fora como quem quer esconder algo e diz:

- Não, não estou sentindo nada! (com cara de interrogação)

O funcionário ficou enlouquecido e fingiu acreditar (ele não podia invadir nosso quarto)

Esperamos ele descer.

Entrei no quarto:

- Fred, você está bem? Vamos sair daqui! (Ele tinha uma camisa amarrada cobrindo o nariz)

Já era noite...Pegamos o bojãozinho, colocamos na mesma mochila e descemos descaradamente passando pela recepção, dando uma boa noite aos funcionários. Fomos para a rua ao lado, de onde víamos o hotel e acabamos tendo uma crise de risos. Eu ria de quase me mijar e dizia em alto e bom tom(depois de passado o perigo):

- AGORA VAMOS ESPERAR O HOTEL EXPLODIR! (repetia várias vezes tropeçando o riso em palavras)

Villanova, Cecília. Antes que eu esqueça.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

HISTÓRIA DE UMA GATA



Foi escolhida por sua mansidão. Pequenina, flocada, apenas 5 meses de vida.

Durante o tempo em que teve um lar, caçou cinco ratos.

Foi ficando “mocinha”; e por ser namoradeira, chamavam-na de Flor.

Com o tempo, o pequenino da casa definiu seu nome, passando a ser definitivamente chamada Bibi.

Bibi ficou prenha, pariu seis gatinhos. Apenas um da ninhada sobreviveu.

Assim eram os dias de Bibi: pegava uma lagartixa ali, uma barata, saltitava pelos muros, ia à casa do vizinho, espiava a rua...

Seus donos, assim como Bibi, não tinham casa própria. E sem escolha, tendo que partir a outro imóvel, não podiam permanecer com ela. O dono do imóvel não aceitara.

Tristes e sem opção, se perguntavam: Com quem deixa-la? Ninguém se habilitava.

Por fim, resolveram um lugar “mais seguro.” Para os mais otimistas, uma pequena savana na cidade. Mas tratava-se de um cemitério de gatos vivos e tristes. Veterinários e biólogos para alimentá-la, estudá-la , castrá-la por toda a vida.

Quantos bichanos haviam por ali... Bibi seria mais uma.

Levada dentro de uma bolsa, assim foi enterrada Bibi: viva e sem cova.

(Cecília Villanova)

domingo, 13 de outubro de 2013

PEQUENO CONTO DE AMOR




Ele: - Muito bonito esse seu relógio...
Ela: - Também acho, um pouco brega, mas acho.
Ele: - Talvez não combine com essa roupa...
Alguns dias depois...
Ela(com ele no pulso) : - Amor, sempre que olho esse relógio, lembro de você.
Ele sufocado, em seu pensamento, imaginava e multiplicava por quantas vezes no dia ela olhava o relógio e pensava nele.

(Cecília Villanova)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

PÔR-DO-SOL NA UPA




Dentro da minha cabeça um disco de violino arranhado tocava a mesma música.
De repente corro à primeira lixeira: não há tempo...
Um vômito súbito: borboletas azuis multifacetadas saem do meu estômago sobrevoando em vôos rasantes todo o saguão de espera. Outras entram na sala de atendimento. Vão se multiplicando, formando nuvens.
Todos incógnitos, atentos, em silêncio.
Médicos e pacientes saem das salas e partem para os corredores.
Alguém está muito doente - grita uma médica.
- EU VIRO UM CASULO EM UMA FLOR CRISÁLIDA.

(Cecília Villanova)

segunda-feira, 18 de março de 2013

UM RETALHO HISTÓRICO DA POESIA EM PERNAMBUCO




Em 1998, na capital pernambucana, foi editado o folheto de poesias CURTÍSSIMO dos poetas Cecília Villanova e Fred Caminha. Vendido em massa, circulou pelas ruas do Recife Antigo, propriamente na Rua do Bom Jesus, onde dividiam espaço de vendas com engraxates, vendedores de amendoim, Lampião do Cordel, Irah Caldeira, que na época cantava na noitada e "fechava a noite" cantando Romaria. Algumas residências daqueles que adquiriam o folheto amanheciam cheias de poesia. Foi uma época de intenso movimento literário.