sábado, 23 de outubro de 2010

O INCANSÁVEL CARRERO





Só uma questão de saúde é capaz de interromper o ritmo de trabalho do escritor e jornalista Raimundo Carrero. Vítima na manhã de terça-feira de um AVC Isquêmico, popularmente conhecido por derrame, ele ainda permanece internado na UTI Neurológica, sem previsão de alta. Em notícia publicada no portal do Jornal do Commercio, a neurologista Feliciana Castelo Branco, do Hospital Português, informou que seu quadro clínico apresentou discreta melhora, e ele está mantendo-se mais acordado e se alimentando. A fisioterapia para tratar o déficit motor nos membros esquerdos já foi iniciada. Livro do Ano pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2010, pela obra “A minha alma é irmã de Deus”, Carrero é um dos autores convidados para a 2ª edição do Festival Literário da Pipa, no dia 20 de novembro. De acordo com o curador do Flipipa, Dácio Galvão, ainda não é possível saber se o escritor poderá se recuperar para participar do evento, mas disse estar recebendo notícias regulares de amigos do escritor sobre seu estado de saúde. O jornalista Carlos de Souza, titular da coluna Toque — Livros e Cultura da TN, entrevistou Carrero dias atrás: “Raimundo Carrero é uma figuraça. Um dos poucos grandes escritores brasileiros que não tem um pingo de frescura”, escreveu Souza. “É um escritor pernambucano da mais alta qualidade, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura deste ano, que lhe rendeu a bagatela de R$ 200 mil. Eu o conheci no Festival Literário da Pipa no ano passado e agora ele me concedeu uma entrevista pela internet”. Sintam o clima da conversa com o autor:

Raimundo, você acha que vale a pena ser escritor no Brasil? Se não vale, então por que tanta gente escreve por aí afora?

Vale, sim, vale muito. Tenho 35 anos de literatura e de muita alegria. Encontro leitores muito inteligentes, converso com eles, com professores, estudantes, gente de toda a ordem. Além do mais, mesmo aqueles que vendem milhares de livros devem se contentar com poucos leitores inteligentes, sem esquecer que vender não é ser lido. Contraditório, concordo, mas é assim. A literatura é uma coisa, a música outra. E não se deve escrever pensando apenas em dinheiro. Deve-se pensar, sim, sempre na qualidade da obra. Assim, vale a penas escrever em qualquer lugar do mundo.

Você ministra oficinas para futuros escritores. Será que é possível ensinar alguém a escrever bem?

Sim, sempre será. Todos nós fazemos oficinas: lendo os clássicos e os consagrados, aprendendo com os grandes, em silêncio ou em salas de aulas. Discutindo um conto, uma novela, um romance com os amigos, e assim podemos aprender. Testemunhei, durante minha vda jornalística no batente, durante trinta anos pessoas aprendendo a escrever nas redações. Alguns entravam sem saber de nada. Mas eram orientados pelos copy deskes, pelos revisores, voltavam, escreviam, reescreviam, liam. No entanto, é preciso uma dose muito grande de humildade. Aqui no Recife tenho uma Oficina de Criação Literária com quarenta a cinquenta alunos, e estudamos, pelo menos, duas vezes por semana, num total de quatro horas, Lendo, debatendo, descrevendo. Isso nós fazemos e temos revelado bons escritores, alguns vencedores de prêmios nacionais.

Você acha que existe uma literatura brasileira ou várias literaturas brasileiras?

Depende muito do método de estudos, de reflexão, de análise. E, é claro, da época. Houve, sim, uma literatura modernista produzida pelos paulistas - e até por penambucanos - nas primeiras décadas do século passado, que prentendia construir uma literatura brasileira com influência das vanguardas européias; e uma literatura regionalista, que seguia a orientação de Gilberto Freyre e que ainda hoje causa muita polêmica; há uma literatura Armorial, construída por Ariano Suassuna e seus seguidores; e uma literatura mais cosmopolita, escrita no Sul e no Sudeste. Mas no bojo da questão, pode-se dizer que há, tudo reunido, uma literatura brasileira, com várias características e tendências diversas. A questão é não fazer apenas uma avaliação sociológica, como é costume, sem raízes estéticas.

Muita gente está decretando o fim do livro com a chegada dos e-books. Você acredita nisso?

O livro de papel tende a desaparecer, pela natural evolução das tecnologias. É óbvio. Haverá resistências, muitas resistências, mas é inevitável. A música, por exemplo, se transformou mais rápido porque independente de um ouvinte: ela vai tocar e pronto. As pessoas, mesmo distantes - e muitas sem querer - ouvirão. A literatura, porém, é um hábito que exige a presença do leitor parado, ainda que dentro de um veículo. E um hábito demora a mudar. E demora muito. Por isso a transformação se dará lentamente. Um pouco ali, um pouco acolá. E tem ainda um dado importante: o preço. O livro eletrônico, pelo menos no princípio, será muito caro, pela limitação das tiragens. Isso gera retenção da sociedade. Outro dado a demonstrar a demora e a assimilação. Mesmo assim será inevitável.

Nunca se publicou tanto no Brasil. Por que as tiragens são tão pequenas?

Creio que temos outro assunto complexo pela frente. Pedro Bandeira, que esreve para jovens, já vendeu, basicamente, em São Paulo, vinte e dois milhões de livros. Há outros tantos autores vendendo muito. Laurentino Gomes - 1806 -1822 - já ultrapassou a casa do milhão de livros. Dráuzio Varela está chegando a um milhão. Vários autores brasileiros, alguns até desconhecidos, ultrapassam fácil a casa dos cem mil livros. Tenho notícias verdadeiras de que Ariano Suassuna vende quarenta mil livros por ano. Além de fatos que nós não conhecemos. Mas podia ser melhor. Bem melhor. O grande problema hoje é a distribuição. Os livros quase não chegam aos leitores. Então, o que é que se vai fazer? Continuamos trabalhando, trabalhando, trabalhando. Mas também publicamos muito, temos muitos autores. Ocorre que poucos, ou pouquíssimos, são profissionais, e aí o livro tem que seguir a corrente. É assim, somos um País de contrastes - já falamos tanto disso - mas estamos avançando. Assegura-se que os livros estão vendendo mais. Portanto, os brasileiros lêem mais. Vamos ver, então.

Você acha que se lê muito no Brasil?

É a questão que estamos examinando. Costumo dizer, brincando, que os livros no Brasil são como os cigarros: poucos compram uma carteira - sobretudo agora - mas todos fumam. De forma que poucos compram livros, mas muitos lêem. É claro que precisamos melhorar isso de alguma forma. É preciso, sim. Mas como respondi anteriormentem a associação de livreiros está muito entusiasmada, porque as vendas estão aumentando. Vamos ver, não é? Aos poucos vamos nos tornando uma nação de leitores. Até mesmo o livro eletrônico pode trazer mais leitores, pela moda. E você sabe o que é moda. De repente, vira uma loucura. Quem sabe se a gente não se transforma num País de loucos leitores?

Muita gente está bancando a publicação de seus próprios livros. Você acha que isso é a indústria da vaidade?

Talvez, Carlão. Mas é preciso lembrar que nossos primeiros grandes autores pagaram as edições. Por exemplo, Guimarães Rosa, no princípio. E Clarice Lispector. E também José Lins do Rego. E tantos e tantos outros. Mas há também a história da vaidade. Todo mundo quer publicar livros. Sobretudo com a tecnologia que se oferece hoje. Mesmo assim, acredite: sempre foi assim. Sempre.

Como você define o tipo de literatura que você faz? Não me diga que é regionalista, pelo amor de Deus.

Não, Carlão, não. Regionalistas são os escritores que seguem as recomendações de Gilberto Freyre. Ele dizia: Literatura com sociologia e antropologia, e alguma coisa de estética. Os outros, ainda que escrevam sobre a região, não são regionalistas. São, quando muito, regionais. Portanto, eu não posso fazer uma literatura regionalista. Fui Armorial no começo da minha carreira, com muito orgulho. E Armorial não tem nada a ver com Regionalista. O Regionalismo copia, retrata a região, e o Armorial recria a partir das bases populares. É muito diferente. No entanto, o meu caminho era - e é - a análise do comportamento humano. Luto com os desvios da mente, questiono as loucuras, ou até a normalidade, como queiram. Mas não chamaria meu caminho de universal, mesmo tocando nos assuntos eternos.

Como é seu processo de criação?

Criei uma família literária - a partir da morte de Absalão, filho de Davi, na Bíblia - e comecei a estudar as relações incentuosas entre pais e filhos. A princípio deixei um tema no ar: o tema do sucídio ou do assassinato. Coloquei Dolores, a mãe da família, no centro do conflito, e comecei a trabalhar os personagens como metáfora, mesmo quando eles mudam de nome e de personalidade. Em A Minha Alma é Irmã de Deus uso a personagem Camila como metáfora da alienação social e política do jovem contemporâneo, mesmo que não diga isso. Procurei recortes de jornais, histórias em revistas, letras de música e fui trabalhando, trabalhado, trabalhando. Por isso ela muda de nome inúmeras vezes no romance, muda de personalidade, e termina empurrando uma carroça onde recolhe comidas nas ruas do Recife. Então, minha obra é una, tem uma unidade interna a que me propus desde o começo. E agora já tenho um romance novo Seria Uma Sombria Noite Secreta, cujo lançamento está previsto para o próximo ano.


O que você acha dessa proliferação de feiras literárias?

Depois do desaparecimento dos suplementos literários, os escritores ficaram com muito pouco espaço para divulgar os seus trabalhos. Então é profundamente salutar que possam conversar com outros escritores, com críticos, com leitores. Há muita critica por aí. Mas se não fosse assim como estaria a vida da gente? Cercada de silêncio e sem leitores. Os criticos dos eventos não estão olhando para isso. E mais: ajuda muito na profissionalização do escritor. Depois desses eventos, ficamos com mais tempo para estudar e escrever, porque não precisamos desperdiçar tempo em mesas de trabalho que não levam a nada. Ouço e leio muitas críticas. Mas ninguém critica os festivais de teatro, de cinema, escritor tem que viver encastelado? E os leitores? Não precisam conversar com os autores. É isso.

(Por Carlos de Souza em Tribuna do Norte)

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