quinta-feira, 13 de maio de 2010

SORRIA, EIS A PANELINHA



Saiba como agem e se formam os clubinhos literários, e de que maneira o pretendente deve se portar para fazer parte da confraria e do “cunhadismo”
(Por Rogério Pereira)


Em todos os tempos, os grupos literários independentemente do espaço em que estejam tentaram marcar um território, localizar um foco de ação e desmontar( ou até mesmo destruir) o inimigo escolhido. As batalhas são inúmeras e os exemplos se multiplicam com facilidade pela história. Como numa guerra campal dos tacapes às bombas atômicas todos buscam um espaço, exercer o poder, sobrepondo seus ideais estéticos aos considerados ultrapassados. Normalmente, de um lado os jovens(com o ímpeto causado pela boa sensação da imortalidade) contra o poder vigente, o inimigo a ser combatido, a ser derrubado, para que novas idéias sejam colocadas em prática. Por sua vez, os “arcaicos” não hão de fraquejar e entregar o queijo de mão beijada para a gatarada alvissareira. Está preperado o terreno para a grande batalha.

Para nortear um pouco melhor esta conversa, alguns exemplos. Um mais antigo: o embate entre Antero de Quental e o poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho, em 1865. A peleja do jovem Antero, então com 25 anos, estava repleta de ironia, sarcasmo e, até, desdém, características irresistíveis aos jovens de espírito provocativo. A querela deu-se por motivos estéticos: de um lado o romântico Feliciano, um senhor de 60 anos, e seus seguidores, de outro o rapagote Antero e sua trupe de modernos. Entre as tantas farpas de ambos os lados, destaca-se o atrevimento de Quental, na carta intitulada “Bom senso e bom gosto”: “Concluo daqui que a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das idéias, o tino e seriedade: e, neste ponto, os meus 25 anos têm-me as verduras de V. Ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta”. E por aí afora.

Cá nestas terras brasileiras, muitos foram os qüiproquós literários, principalmente a partir da Semana de Arte de 22, emblemática para as discussões estéticas em todas as áreas artísticas, criando-se um clima favorável ao contraste de idéias. Entre as pendengas “contemporâneas” não se pode deixar de lembrar a tentativa de linchamento feita pelos concretistas liderados por Décio Pignatari e os irmãos Campos ao poeta Cassiano Ricardo, um “velho caduco” para os moldes da poesia concreta que, na década de 50, tentava impor seus conceitos artísticos. As arengas continuaram depois contra a poesia da práxis de Mário Chamie. O nível do embate é de deixar qualquer Polzonoff enrubescido.

Isto posto, apenas para apresentar casos tão distantes coincidentemente entre poetas adentremos(de leve) em alguns quintais infestados de cobras, algumas venenosas, da literatura brasileira atual. Os grupos (ou grupelhos, em alguns casos) de escritores/ poetas que tentam impor-se de alguma maneira por meio de um ajuntamento que, muitas vezes, prima pelo cunhadismo exarcerbado, o que acaba com qualquer resquício de credibilidade dos integrantes. Lamber-se mutuamente é exercício corriqueiro entre os sócios de tais clubes literários, que normalmente têm força na mídia e, assim, podem propagar suas idéias com intensidade para acertar o inimigo. Tais grupos existem em qualquer lugar deste Brasil. De Curitiba a Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. É claro que, por motivos mais do que óbvios, a força destas igrejas literárias concentra-se em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Mas por que tais grupos se formam? A respostas é simples e intrigante: pelo poder. Mas de que poder falamos, se a literatura brasileira pouco representa na ordem do dia? Este poder resume-se ao próprio terreiro, às mesquinharias cotidianas, ao estrelato fugaz que percorre poucas quadras. É uma questão de ego. Juntam-se para o fortalecimento, para serem lembrados quando o caixão for fechado sob o olor de crisântemo. Besteira, nada mais. Falta do que fazer na vida. O “mestre” do grupo busca o chamego dos seguidores. Estes, por sua vez, anseiam a proteção na “multidão”, para esconder suas fragilidades, defeitos e poucos qualidade literária. No grupo, todos são deuses, deuses de papel.

A fórmula pode ser resumida em alguns pontos cruciais. Vejamos o caso da atual poesia brasileira, com dicas ao postulante a uma determinada panelinha. Neste caso, moderníssima. Eis, portanto, algumas:

1) Eleja seu guru, o líder que norteará seus passos vida afora. Decore alguns versos deste amado protetor. Serão muito úteis num primeiro contato e em uma emergência estética.

2) Ao ser aceito no grupo (não é muito difícil, basta ter paciência e bom ritmo na arte do puxassaquismo), nunca, nunca mesmo, tente superar o “mestre”. Será o seu fim. A subserviência é vital para a sua sobrevivência.

3) Tenha na ponta da língua os poetas que mais lhe agradam. Pode citar à vontade Paulo Leminski e Ana Cristina César: são quase unanimidades entre a piazada e os velhotes que em vão tentam driblar o tempo. Você será considerado chique. Fácil, fácil.

4) Tenha sempre no bolso um dicionário de sinônimos, para uma improvisação emergencial.

5) Anote bem esta aqui. Jamais, em hipótese alguma diga que gosta da poesia de Lêdo Ivo. Será o suicídio. Muito menos fale em Bruno Tolentino. Você será escorraçado.

6) Não se esqueça dos estrangeiros. Além dos clássicos, eleja um francês. Vá de Francis Ponge, que, além de excelente poeta, é pouco lido e ninguém argumenta contra. Você vai ouvir: “Ah, é maravilhoso”.

7) Defenda a ferro e fogo as idéias impostas por seu grupo. Nunca fuja da batalha campal, mesmo que isso lhe cause constrangimento.

8) Elogie toda a produção do grupo, sem exceção. Enfim, são todos geniais; inclusive você.

9)Caso não goste da produção de um dos integrantes do clubinho, tente o silêncio, que, já aviso, é um sinal de fraqueza. Se o silêncio for impossível, não titubeie: formule uma bela teoria sobre o novo livro tão interessante de poesias.

10)Menospreze o grupo adversário. Com o novo livro do desafeto da vez em mãos, gargalhe diante dos asseclas de sua horda de sábios. Será com certeza, aplaudido pela força de sua percepção crítica.

11)Mande cartas aos jornais (com pseudônimo, è claro) criticando o comportamento de seus adversários.

12) Nunca sinta vergonha de ser poeta e pertencente a sua panelinha. É preciso ser um forte nesta sociedade encharcada de incompreensão.
Já a estratégia para ser o grande guru, mestre dos mestres dos seguidores, é bem mais fácil:

1)Escreva um livro incompreensível de poesia, com vários sinais gráficos, sem ritmo, destrua as metáforas e não dê a mínima para a métrica.

2)Lance um livro por ano e fique nas sombras durante anos. Após o exílio voluntário, volte com tudo (não sei dizer como), propague novas tendências, invente, crie, por mais imbecis que elas possam parecer. Não se envergonhe, que o reconhecimento há de vir.

3)Fale e escreva coisas incompreensíveis.

4)Faça alguns amigos poetas (poucos).

5)Exerça liderança, sem o uso da força, é claro.

6)Imponha seus versos.

7)Faça mestrado e doutorado em literatura, e escreva um livro de ensaios. Hermético, é claro. E com várias citações...

8)Invente uma nova teoria. Ela pode ser uma melhorada de qualquer coisa que circula pelo meio acadêmico. Ninguém vai ficar sabendo. Pode ficar tranqüilo


9)Apareça ao máximo para quem interessa. Nunca o grande público. Até porque grande público em literatura se resume a pouquíssimos.

10)Após conquistar a sua gleba, onde há de frutificar suas idéias, continue o árduo trabalhode convencimento. Seu exército deve ser forte e temido.

11)Conquiste espaço nos meios de comunicação, na universidade e nas editoras. Missão difícil, mas não impossível para uma pessoa tão importante e inteligente como você.

12)Convença os seus guerreiros de que é necessário lançar uma revista com o ideário do grupo, sempre convidando alguns poetas de fora, para dar um ar de pluralidade.

(in "Rascunho", de Curitiba)

3 comentários:

Carmem L Vilanova disse...

Ai Prima,
Se todas as panelinhas estivessem restritas ao mundo literário a vida seria muito melhor. Encontramos panelinhas em todos os lados, até mesmo na família (onde não deveriam existir) e assim é a vida, Prima...
O melhor é tirar o melhor proveito de tudo sem se importar muito com a maluquice alheia (rsrs)
Beijos, flores e muitos sorrisos!

Carmem L Vilanova disse...

Prima,
Deixei um presentinho para voce lá no meu blog...
Espero que goste!
Beijos, flores e muitos sorrisos!

Divyamn Anuraghi disse...

Excelente e muito boa essa carta.
Apanágio de todas as pendegas e "lutas" em que se envolveram a maioria dos poetas e escritores de plantão no século passado.

Hoje em dia, somos mais sofisticados. Dizemos palavrões com delicadeza ou aviltamos a língua portuguesa por diletantismo.
Depois bebemos um choop gelado.